Quando a mulata é a tal!

O termo mulata, tantas vezes presente nas canções que animam há décadas o carnaval carioca, em 2017 foi alvo de grande polêmica. Isso se deu após alguns blocos no Rio de Janeiro decidiram não tocar as as marchinhas que mencionassem o vocábulo em suas letras.

De acordo com o entendimento dos seus organizadores, clássicos da folia como: O teu cabelo não nega, Mulata bossa nova e até Tropicália trazem uma mensagem que remete ao preconceito e discriminação. Um dos grupos, inclusive, promete fazer uma performance valorizando a mulher negra em seu desfile.

A raiz do problema estaria na etimologia, pois o vocábulo em questão seria uma derivação da palavra “mula”, um animal estéril, resultado do cruzamento do jumento com o cavalo. Registros indicam que durante o período escravagista brasileiro, essa palavra começou a ser usada para se referir, também, aos filhos de negros com brancos.

Há controvérsias! para alguns estudiosos ,“A palavra mulata poderia ter se originado do termo árabe muwallad (= mestiço de árabe com ‘não árabe’) ”. Como se pode observar, o termo em árabe também remete a ideia de miscigenação, assim como no idioma espanhol, onde mulata significa mestiço, pardo ou moreno.

Similar ao caso brasileiro, nos Estados Unidos, existe um termo do vocabulário racial considerado extremamente preconceituoso , a palavra nigger que foi usada pelos brancos, no período colonial, para se referir aos negros, indicando que eles eram inferiores, sub-humanos. O movimento negro norte- americano baniu o seu uso.

Assim como nigger, a palavra mulata deveria ter seu uso definitivamente banido no Brasil. Entretanto, como nem tudo que serve aos Estados Unidos se aplica à Pindorama, vamos às nossas especificidades.

É preciso lembrar que nos Estados Unidos “branco é branco , negro é negro e a mulata não é a tal”. Ao contrário da América do Norte, somos um país onde majoritariamente negros tiveram filhos com brancos, mais da metade da nossa população é …. mestiça.

Nossa sociedade foi se constituindo híbrida e, para alguns, essa característica foi imprimindo um caráter de vantagem identitária para a nossa cultura. Sendo assim, o vocábulo mulata ganhou novos sentidos, dentre os quais a ideia de uma exaltação à miscigenação, que atribuiu um significado positivo ao termo.

Será que devemos nos tornar reféns da etimologia? Não quero minimizar o preconceito praticado no Brasil, compreendo a carga que as palavras possuem, entretanto quero destacar que a natureza da discriminação praticada aqui exige uma reflexão que considere a nossas especificidades.

Na foto, Marina Montini no baile do Copacabana Palace em 1969. Foto publicada na revista Fatos e Fotos nº 421.

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