A Mocidade de vice a campeã de 2017

“Nas narrativas das mil e uma noites o uso do número 1001 sugere que podem aparecer mais histórias, ligadas por um fio condutor infinito. Usar 1000 talvez desse a ideia de fechamento, inteiro, que não caracteriza a proposta da obra”…

A milésima segunda história acabou de ser acrescida ao clássico persa, aqui no carnaval, do Rio de Janeiro. Os presidentes das agremiações do Grupo Especial decidiram dividir o título de 2017 entre Portela e Mocidade, com sete votos a favor e cinco abstenções. Somente a Portela foi contra a medida.

A Mocidade, vice-campeã, virou campeã. Entenda: a agremiação ficou apenas um décimo atrás da Portela, que somou 269,9 pontos. Se o julgador Valmir Aleixo tivesse dado 10 para a Mocidade, ela empataria com a escola de Madureira. No desempate, seria a vencedora pelo quesito comissão de frente, em que a Portela perdeu um décimo, somando 29,9 pontos. Nesse item de desempate, a agremiação de Padre Miguel teve nota máxima:30 pontos.

Para a Mocidade a nota do julgador foi injusta e impediu que ela vencesse a disputa. Valmir teria feito o julgamento baseado nas informações da primeira edição do livro Abre Alas, recebido pelo corpo de jurados, no qual constava que haveria a participação de um destaque num determinado trecho da apresentação. Mas, numa segunda edição do material, a informação foi retificada, sem que nenhuma errata alertasse para a troca.

O julgador subtraiu um décimo em sua nota, sob o argumento de que a Mocidade não apresentou o destaque de chão citado na primeira versão do calhamaço, em que ficam registrados todas as fantasias e alegorias da escola.

A conjuntura que vivemos, hoje, em nosso país, nos leva a desconfiar de tudo e de todos. Entretanto, a atuação do avaliador foi irrepreensível. Agiu com extrema correção e zelo. Atento aos detalhes, cumpriu a sua função.

Um processo complexo como o julgamento da nossa ópera carnavalesca exige um detalhamento de regras igualmente sofisticado. A percepção, por parte da LIESA, de que é preciso aprimorar os protocolos foi sábia e madura. O diretor da LIGA, Jorge Castanheira, demostrou um elevado senso de justiça e equilíbrio na condução do tenso desdobramento dos fatos.

Em recente episódio, na entrega do Oscar, os envelopes que deveriam indicar o vencedor da categoria de melhor filme foram trocados: o filme vencedor era Moonlight: Sob a Luz do Luar e não La La Land como o anunciado. O funcionário responsável em passar o sobrescrito para os apresentadores estava no celular e distraiu-se! A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood renovou uma série de procedimentos para evitar uma eventual repetição do fiasco de 2017. Celulares serão proibidos nos bastidores da premiação, por exemplo.

Apesar do equívoco, o 89º Oscar de melhor filme foi concedido ao real vencedor.

A Mocidade não poderia ficar prejudicada e a decisão em dividir o pódio com a Portela, que fez um desfile espetacular, foi salomônica. O desfile da verde e branco foi repleto de momentos espetaculares.

O sobrevoo espetacular do tapete mágico, parte dos truques ilusionistas da comissão de frente, arrancou da plateia um uníssono ohhhh!!! Um dos momentos mais inesquecíveis do desfile de 2017.

O voo de Aladim abriu caminho para um abre-alas impactante repleto de camelos e beduínos, tudo em reluzente dourado.

Baianas fantasiadas de vendedoras de chá e espirrando essências de hortelã, caravanas de mercadores, Ali Babás escondendo o ouro em cavernas, vendedores de lâmpadas com uma belíssima fantasia em verde e dourado, e o samba? uma das melhores composições do ano.

No milésimo segundo conto do clássico persa, não foi necessário evocar o gênio da lâmpada, a “reconsiderada” vitória da Mocidade Independente de Padre Miguel foi conquistada pela garra dos seus componentes e beleza do seu espetáculo. Parabéns Mocidade!

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