As pedras pisadas do Cais do Valongo

Em 1976, sessenta e cinco anos depois do aterro do Cais da Imperatriz, o Salgueiro desenterrava a história do maior porto de recebimento de escravos das Américas. O Cais do Valongo é um local de memória, que remete a um dos mais graves crimes perpetrados contra a humanidade, a escravidão.

Até meados da década de 1770, os escravos desembarcavam na Praça XV, e eram negociados à vista de todos. Em 1774, uma nova legislação, estabeleceu a transferência desse mercado para a região do Valongo, com o objetivo de esconder a barbárie do olhar da população. A região, hoje central, era afastada da cidade.

De 1811 a 1831, entre 500 mil e um milhão de escravos ali desembarcaram. O Rio de Janeiro foi o porto negreiro nas Américas onde mais desembarcaram cativos africanos.

Em 1843, foi feito um aterro de 60 centímetros de espessura sobre o, já decadente, cais do Valongo para a construção de um novo ancoradouro, destinado a receber a princesa Teresa Cristina, futura esposa de D. Pedro II. O cais foi então rebatizado ‘Cais da Imperatriz’. Teve inicio assim o processo de “enterramento histórico” do triste porto.

Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o Cais da Imperatriz foi aterrado, definitivamente, em 1911.

Coube ao Salgueiro o resgate da memória desse marco físico do deslocamento forçado de africanos para o território americano.

A abordagem feita pelo carnavalesco Edmundo Braga, entretanto, preferiu destacar a contribuição africana na miscigenação do povo brasileiro.

Dividido em 3 partes, África, Travessia e Valongo, o enredo foi defendido por dois mil figurantes, distribuídos em 113 alas, com 63 peças alegóricas, entre carros(9) e portáteis, 330 integrantes na bateria e 39 destaques.

A revista Manchete, em sua edição de carnaval, afirmava: “O desfile correto, dentro da melhor tradição salgueirense, não chegou a empolgar as arquibancadas (foram montadas sobre o Mangue, na Avenida Presidente Vargas) . Culpa talvez da pouca comunicabilidade do samba-enredo, que não crescia na avenida. Nem mesmo a classe do puxador, o compositor Noel Rosa de Oliveira, conseguiu levar o samba à espinha da plateia. A bateria garantiu o ritmo, a melodia não atravessou nem por isso Salgueiro trouxe a sua tradicional empolgação”

Será que a citada ausência de empatia foi provocada pela letra equivocada do samba de Djalma Sabiá? Um controverso trecho afirmava:“ Terminou o guerreiro num navio negreiro/Lugar do seu lazer feliz”, como assim? lazer feliz num navio negreiro? um deslize imperdoável para um escola que se consagrou enaltecendo Zumbi, Chica da Silva, Chico Rei, a luta dos negros no nosso país.

É preciso lembrar que o ano de 1976 foi repleto de sambas memoráveis, dentre eles “Os Sertões” da escola de samba, Em Cima da Hora. Um dos maiores sambas da história dos sambas de enredo.

Além de problemas com o hino, o Salgueiro enfrentava outros desafios: perdeu o genial carnavalesco Joaozinho Trinta e o diretor de harmonia Laíla para a Beija Flor, driblava uma crônica crise financeira, e era alvo de pertinentes críticas ao excesso de componentes brancos em seus desfiles. O último carro alegórico do desfile de 1976, que trazia escravas acorrentadas, não tinha uma negra sequer.

Edmundo Braga foi contratado com o objetivo de levar a escola tijucana ao tricampeonato. A agremiação perdeu cinco pontos em cronometragem e conseguiu, apenas, chegar em quinto lugar, com 106 pontos.

Em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da zona portuária do Rio de Janeiro, foram descobertos os dois ancoradouros, Valongo e Imperatriz, um sobre o outro.

As pedras pisadas do cais cantadas pelo Salgueiro em 1976 foram declaradas patrimônio da humanidade na 41ª sessão do comitê da Unesco, em 2017. Um “sítio arqueológico sensível”, mesma categoria do campo de concentração de Auschwitz e da cidade de Hiroshima, destruída por uma bomba atômica.

Na foto publicada, a passista Roxinha, ícone salgueirense, para mandar a tristeza embora, rebate a dor da diáspora com samba no pé.

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