Lima Barreto – mulato pobre, mas livre

A 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 2017, homenageou o escritor carioca Lima Barreto. Esta foi a segunda grande homenagem ao escritor, a primeira foi em 1982 quando a escola de samba Unidos da Tijuca desenvolveu o enredo ,”Lima Barreto – mulato pobre, mas livre”.

“Vamos recordar Lima Barreto/Mulato pobre, jornalista e escritor/Figura destacada do romance social/Que hoje laureamos neste carnaval”são os primeiros versos do belíssimo hino da tradicional escola tijucana. Composto de forma tradicional, inaugurando os versos com uma clássica evocação ao homenageado.

“Era realmente o momento de trazer Lima Barreto, até porque o país e o mundo têm discutido muito a questão racial. Era uma forma de contribuir para essas discussões”, esclareceu a curadora da Flip, Josélia Aguiar. Viés trilhado pela Tijuca de forma pioneira, há 35 anos atrás.

Filho de pais com instrução, mas de humilde situação financeira, Lima Barreto, perdeu a mãe, Amália Augusta, que era uma escrava liberta e professora, aos seis anos de idade. O pai, o tipógrafo João Henriques, tomou conta do menino e de outros três filhos mas, poucos anos depois foi diagnosticado como neurastênico. O padrinho de Lima Barreto, o Visconde de Ouro Preto, pagou por sua educação.

Em 1904, contudo, teve que abandonar os estudos para sustentar os irmãos já que seu pai começou a ter acessos de loucura. Lima Barreto entrou por concurso no Ministério da Guerra, encarregado de fazer cópias, registros e correspondências.

O alcoolismo e depressão o levaram a ser internado pela primeira vez em 1914. Seu estado de saúde piorou e ele foi internado por invalidez em 1918. No ano seguinte tenta o ingresso, pela terceira vez, na Academia Brasileira de Letras, e desiste antes da votação.

“Barreto não sabia/Que o talento banhado pela cor/Não pisava o chão da Academia/Vencido pela dor de uma tragédia/Que cobria de tristeza a sua vida/Entregou-se à bebida/Aumentando o seu sofrer”

O iniciante carnavalesco, Renato Lage, realizava o terceiro e último desfile na Tijuca. Começou com pé direito em 1980, conquistando o titulo no grupo de acesso A, com o enredo sobre Delmiro Gouveia. No ano seguinte conquistou o oitavo lugar, já no grupo especial, com o tema, “O que dá para rir dá para chorar – A peleja do caboclo Mitavaí contra o monstro Macobeba”. Fechou sua interessante triologia, que resultou em antológicos sambas, com a homenagem ao triste e visionário escritor carioca.

A escola se apresentou com três carros alegóricos: “O abre-alas”, “A gratidão e o louvor dos negros a Lima Barreto” e “Os textos de Lima Barreto e os tipos suburbanos”. O carnavalesco, foi muito elogiado pelas belas fantasias retratando a belle époque.

O ponto alto do desfile, entretanto, foi o excelente samba enredo, composto por Adriano. Assim mesmo, sem sobrenome e parceiros. Um samba de um único compositor.

A Unidos da Tijuca, colocou mil e oitocentos componentes motivados para buscar uma boa classificação. Ficou em nono lugar. Mas cumpriu o papel de resgatar, de forma digna, o lugar de Lima Barreto entre os grandes da literatura brasileira.

Muitos consideram o desfile e o samba da Tijuca baixo astral, apelativo. Mas é isso mesmo, o autor que denunciou o racismo no inicio do século XX, sofreu.

O escritor convivia com o vício do alcoolismo e com internações psiquiátricas, já que padecia com crises forte de depressão, que o levaram à morte precoce, vítima de um ataque cardíaco, aos 41 anos, no dia 1 de novembro de 1922.

Nenhum logradouro público em área nobre da cidade em sua homenagem, nem rua, praça ou muito menos avenida. Triste, solitário, melancólico, mas jamais esquecido!

“Lima Barreto/Este seu povo quer falar só de você (bis)/A sua vida, sua obra é o nosso enredo/E agora canta em louvor e gratidão”

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