O Black face do Salgueiro em 2018

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No carnaval de 2018 os Acadêmicos do Salgueiro, com o enredo “Senhoras do Ventre do Mundo”, que celebrou a história da mulher negra, apresentaram a bateria e comissão de frente utilizando o recurso de maquiagem conhecido como Black Face.

Os componentes da bateria, representando faraós, levaram pelo menos quatro horas para serem maquiados. Segundo alguns ritmistas, mesmo em uma bateria formada por muitos negros, em nenhum momento se discutiu a questão.

“Precisávamos dessas feições mais escuras. Por isso, decidimos pela pintura …. A maquiagem era a única forma de conseguir o tom certo,” Afirmou um dos responsáveis pelo carnaval da escola.

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A repercussão nas mídias sociais foi instantânea: para que pintar integrantes das citadas alas, negros na sua maioria, de tinta preta? Será que a crítica seria mais um exemplo de excesso do ativismo “politicamente correto”?

O Black Face foi utilizado como recurso do racismo norte americano, para ridicularizar os negros, por mais de um século. Uma ferramenta da opressão.

No século 19, negros não podiam participar de peças teatrais e seus personagens eram representados por pessoas brancas que pintavam os rostos de carvão e passavam batom vermelho de forma esdrúxula. Foi assim que surgiu a expressão Black face.

A origem desse tipo de representação aconteceu nos Estados Unidos, mas logo ganhou popularidade e atravessou todo o mundo. O problema não estava apenas no fato de os negros não poderem participar das peças de teatro; a forma como eles eram representados pelos brancos era caricata e exagerada, tendo como o único objetivo servir de graça para a aristocracia branca-escravocrata, com o único intuito de ridicularizar os negros.

Essa prática ganhou espaço no cinema no início do século XX. Como exemplo, temos o filme O nascimento de uma nação de Griffith. O primeiro filme falado da história, O cantor de jazz, de 1927, também se utilizou dessa “técnica”, o ator Al Johnson para interpretar um jovem cantor negro de jazz pintou seu rosto de preto.

A fantasia de “nega maluca” é a expressão local dessa técnica. Além do tinta preta no rosto, a peruca afro e batom vermelho, passado forma para aumentar os lábios, criam uma imagem hipersexulaizada e jocosa da mulher negra.

Talve não tenha ocorrido aos carnavalescos que a utilização puramente estética sem a intenção de caricaturar, costumeira no uso tradicional do procedimento, geraria críticas contundentes à escola.

É notória a tradição de enredos enaltecendo a negritude na vermelho branca tijucana. Marcaram a história do carnaval carioca o resgate de Zumbi, Chica da Silva, Chico Rei, reorientando a temática das escolas de samba do Rio de Janeiro, que desfilavam, exclusivamente, os feitos da História oficial.

Nem de longe a polêmica maculou o belíssimo desfile ou a identidade da agremiação. A escola ficou em terceiro lugar ,apresentou um dos mais belos conjuntos de fantasias e carros alegóricos do ano.

Quem sabe teria sido essa, mais uma ousadia salgueirense: dar um outro sentido ao recurso. Seria possível ressignificar a pintura negra da face, que durante séculos foi instrumento de segregação, dar a ela uma finalidade puramente estética?

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