Mangueira uma escola com partido

A bandeira estendida ao final do desfile, com seu dístico transmutado, não deixou dúvida com relação ao posicionamento político da verde e rosa. Está do lado dos “pobres, negros e índios “.

Nos seu primeiros meses de governo, o presidente Bolsonaro criou sua própria agenda de dificuldades. Seu maior inimigo foi ele mesmo. Nem mesmo os partidos que prometiam “resistência” a manifestaram. O desfile da Mangueira foi o maior ato de repúdio ao atual governo, até agora. Pode parecer inacreditável , e é! Mas, nenhum partido de esquerda conseguiu se manifestar de forma tão contundente quanto a Estação Primeira.

Com o enredo “História para ninar gente grande”, a escola de Cartola não fez por menos, apontou seu surdo de primeira, na direção de uma das principais bandeiras do atual governo: a “escola sem partido”, e desenvolveu seu carnaval.

A crítica política que caracteriza o enredo vem ganhando espaço nas agremiações do grupo especial.

Em 2018, a reforma trabalhista foi impiedosamente criticada pela Paraíso do Tuiuti No mesmo ano, com uma estética sem filtros, empunhando a bandeira da luta contra a corrupção, violência, intolerância de gênero e racial a Beija Flor venceu a disputa.

O enredo da Mangueira tomou partido contrário ao projeto estapafúrdio que, a princípio, defende que se ensine conteúdos de forma imparcial. Ideia que na verdade esconde o objetivo de impor o “viés ideológico” do grupo dque governa.

Não existe conhecimento imune a posicionamentos A partir desse princípio, a Mangueira apresentou o embate entre a chamada história oficial e sua versão crítica. Sai: Anchieta, Caxias, princesa Isabel, Deodoro, D. Pedro I, e entram: Luisa Mahin, Dandara, Chico de Matilde.

Assumem o protagonismo personagens negligenciados da história: negros na luta pela liberdade, tamoios que lutaram contra o branco usurpador, aqueles que morreram enfrentado a ditadura militar. Os heróis dos barracões, nunca lembrados. Todos em cortejo, desfilaram na verde e rosa. Inevitavelmente, alguns nomes foram esquecidos: João Candido, o “Almirante negro” da Revolta da Chibata”, por exemplo.Um inequívoco “herói”negro.Nada que tirasse o brilho do desfile.

Ao remexer os baús da dita história oficial, as flechas da verde e rosa melindraram posicionamentos. Alguns historiadores, militares saíram em defesa dos ditos heróis constituídos. Caxias não foi bem aquilo que o texto publicado em um dos carros alegóricos da escola. Muito menos a princesa Isabel merecia a irrelevância total no processo da Abolição. Entretanto, o contraditório valorizou ainda mais a proposta do carnavalesco.

É preciso ressaltar, entretanto, que o resgate de heróis esquecidos pela história, há algum tempo foi incorporado ao ensino da história. Há algumas décadas a formação do docente de historia tem essa orientação. Desde dos anos setenta, do século passado, registramos a publicação de livros didáticos com essa orientação.

Nem como enredo de escola de samba podemos afirmar que o tema da Mangueira foi propriamente uma inovação do carnavalesco Leandro Vieira. Em 1960, o Salgueiro revolucionou o carnaval carioca contando a história Zumbi dos Palmares. Em 1963, “Xica da Silva”, 1965, “Chico Rei”. Em 1969, a vermelho e branco, “foi de aço nos anos de chumbo”, em plena ditadura militar, sob a batuta do grande carnavalesco Fernando Pamplona, “História da liberdade no Brasil” colocava o dedo na ferida.

Infelizmente, a atual conjuntura tornou necessário, mais uma vez, “tirar a poeira dos porões”. O assassinato de Marielle Franco foi o elo entre o passado e o presente. Além da presença de sua companheira no desfile, a vereadora foi citada no samba(o mais lindo do ano) e na comissão de frente. Uma heroína sob medida para o enredo da Estação Primeira.

Uma narrativa certa na hora certa. Não deu pra ninguém. Parabéns Mangueira!

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