Quando o esdrúxulo causa uma surpresa

Há bônus e ônus em ser uma figura pública. Ao se candidatar a um cargo eletivo, além dos conhecimentos necessários para o exercício da função, o candidato tem que avaliar como anda o seu estado emocional.

Deve ser difícil acordar de manhã, abrir o jornal e se ver alvo de críticas, as vezes injustas. Ossos do ofício.

Desde sempre, o carnaval foi uma das manifestações prediletas da população para extravasar suas discordâncias com relação aos governantes. Máscaras e bonecos representando autoridades desfilam em blocos de todo país. Nenhum governante perdeu o cargo em função dos deboches momescos.

Infelizmente, o nosso presidente perdeu a cabeça com as fantasias de laranjas que marcaram presença nos cordões carnavalescos.

Laranjas? Sim, laranjas. Não, propriamente, referindo-se ao seu significado frutífero. Mas “o laranja” que assume uma compra, a propriedade de um imóvel, de um bem, para esconder o enriquecimento ilícito de um político. Não sei o quê as laranjas tem a ver, mas laranja também é isso.

A fantasia vitoriosa no concurso “Serpentina de Ouro ” promovido pelo jornal O Globo foi a de “caixa eletrônico e 48 envelopes de depósitos”, em referência às movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro.

O idealizador foi o professor Faber Paganoto, a partir de um meme no Twitter que dizia “somos todos depósitos do Bolsonaro “. Faber, que saiu vestido de caixa eletrônico, juntou 48 amigos, que se fantasiaram de envelopes para depósitos de R$ 2 mil, cada um. A cor escolhida para os cheques e para o caixa eletrônico era foi ….laranja.

Gostei também do “laranjal do Bozo”, essa clicada pelo fotografo Rafael Medeiros, no bloco Galo da Madrugada, em Recife.

Quem não gostou nada das alusões às candidaturas mobilizadas pelo PSL e a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonoro suspeito de atuar como laranja, foi o presidente.

Para incendiar mais ainda, assessores ainda relataram a ocorrência de manifestações e xingamentos contra o capitão. Esse ano, os bonecos do presidente e da primeira-dama Michelle, receberam vaias e foram alvos de latinhas de cerveja. Não suportou as vaias recebidas em várias capitais do país.

O mesmo Bolsonaro que não viu nada demais, em 2016, ao virar um dos bonecos gigantes nas ruas de Olinda. Postando, inclusive noticias sobre o fato, ficou bastante aborrecido com essa chicana toda e resolveu se vingar.

Em mais uma atitude marcada pela excentricidade, a vendeta veio na forma de postagem de um filme, com conteúdo de sexo explicito no seu Twitter, com 3,4 milhões de seguidores.

No filme os artistas, Paulx Castello e Sofia Lacre, realizaram uma performance, para muitos escatológica, num pequeno bloco paulista. Encenaram para um publico minúsculo, talvez sessenta pessoas, um manifesto pelo liberdade sexual. Um das pessoas dança, introduz os dedos no ânus e, em certo momento, abaixa a cabeça para que um outro homem urine sobre ele.

O ato tinha como objetivo “exibir algo do que se tem produzido em relação as sexualidades não normativas “.

Um manifesto publicado pelos performers, após a instauração da polêmica. Dizia: “Nossos corpos e desejos dissidentes rompem com os papéis de género machistas e misóginos que enxergam os corpos feminizados como buracos. Nós estamos do lado da imoralidade de vidas ditas como irrelevantes e matáveis. Somos corpos não docilizados da escatologia social “.

Um ato assistido por um número restrito de pessoas, no pequeno bloco, ganhou o mundo. Ao que tudo indica o objetivo era passar uma ideia que o carnaval era uma festa dissoluta, imoral. Ao concluir o tuíte, Bolsonaro sugeria uma reflexão: “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar as suas prioridades. Isto é que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”.

Não é verdade. De forma alguma esse é o clima dominante no carnaval de rua brasileiro.

A excêntrica postagem nada mais fez do que divulgar quilo dizia repudiar. O próprio Bolsonaro chama atenção para uma das práticas encenadas: o “golden shower “, prática que diz desconhecer. não conseguiu convencer a ninguém com seu esdrúxulo ato de represália.

O desnecessário tuíte foi a patética contribuição do presidente Bolsonaro ao seu primeiro carnaval. Um tiro no pé.

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