Tônia Carrero, Rainha das Atrizes de 1971

Minha memória mais antiga de Tônia Carrero vem de sua participação, no ano de 1970, na novela “Pigmaleão”. Uma adaptação de um texto do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw. Na peça, um professor tenta transformar uma modesta vendedora de flores numa dama da sociedade. Já na novela, os papéis foram invertidos, é uma viúva rica proprietária de um salão de beleza, que, por causa de uma aposta com amigas, se propõe a transformar a vida de um feirante Fernado Dalva (Sérgio Cardoso) e ensiná-lo a se comportar em sociedade.

Aos dez anos de idade testemunhei o sucesso instantâneo que a novela provocou, muito pelo talento e beleza da atriz, mas também por uma razão inesperada: os figurinos e estilo da personagem. As calças boca de sino, os lenços estampados na cabeça, batas e os colares artesanais, figurinos desenhados por Carlos Gil e José Gayegos, no estilo hippie chic, encantaram os telespectadores.

O sucesso foi tanto que até o corte de cabelo usado pela atriz na trama, apelidado de “Corte Pigmaleão”, virou moda. Era um corte em camadas, obra do cabeleireiro Renault Castanheira, cujo o salão ficava no Copacabana Palace.

Além de virar tendência, Tônia, no ano seguinte, virou rainha, recebeu a unanimidade dos votos do Conselho Deliberativo da Casa dos Artistas para ser a Rainha das Atrizes de 1971. A atriz venceu suas colegas Márcia de Windsor, Tereza Amayo, Glória Menezes e Dina Sfat na disputa de quem seria a Rainha das Atrizes pelo trono momesco.

Muita gente foi ao baile de coroação no Sírio e Libanês. No dia 18 de fevereiro de 1971, Glauce Rocha, a Rainha das Atrizes de 1970, passou o cetro e a coroa para Tônia, que dividiu as honras da noite com Francisco Cuoco, sucessor de Sérgio Cardoso como Príncipe dos Atores .

Tônia Carrero morreu aos 95 anos, em 3 de março de 2018, em uma clínica no Rio de Janeiro, vítima de uma parada cardíaca enquanto realizava um procedimento cirúrgico para tratar de uma úlcera no Sacro. Havia alguns anos, sua saúde estava debilitada por conta de uma Hidrocefalia oculta doença que a acometeu já idosa e que a impedia de falar e se locomover.

O Black face do Salgueiro em 2018

No carnaval de 2018 os Acadêmicos do Salgueiro, com o enredo “Senhoras do Ventre do Mundo”, que celebrou a história da mulher negra, apresentaram a bateria e comissão de frente utilizando o recurso de maquiagem conhecido como Black Face.

Os componentes da bateria, representando faraós, levaram pelo menos quatro horas para serem maquiados. Segundo alguns ritmistas, mesmo em uma bateria formada por muitos negros, em nenhum momento se discutiu a questão.

“Precisávamos dessas feições mais escuras. Por isso, decidimos pela pintura …. A maquiagem era a única forma de conseguir o tom certo,” Afirmou um dos responsáveis pelo carnaval da escola.

A repercussão nas mídias sociais foi instantânea: para que pintar integrantes das citadas alas, negros na sua maioria, de tinta preta? Será que a crítica seria mais um exemplo de excesso do ativismo “politicamente correto”?

O Black Face foi utilizado como recurso do racismo norte americano, para ridicularizar os negros, por mais de um século. Uma ferramenta da opressão.

No século 19, negros não podiam participar de peças teatrais e seus personagens eram representados por pessoas brancas que pintavam os rostos de carvão e passavam batom vermelho de forma esdrúxula. Foi assim que surgiu a expressão Black face.

A origem desse tipo de representação aconteceu nos Estados Unidos, mas logo ganhou popularidade e atravessou todo o mundo. O problema não estava apenas no fato de os negros não poderem participar das peças de teatro; a forma como eles eram representados pelos brancos era caricata e exagerada, tendo como o único objetivo servir de graça para a aristocracia branca-escravocrata, com o único intuito de ridicularizar os negros.

Essa prática ganhou espaço no cinema no início do século XX. Como exemplo, temos o filme O nascimento de uma nação de Griffith. O primeiro filme falado da história, O cantor de jazz, de 1927, também se utilizou dessa “técnica”, o ator Al Johnson para interpretar um jovem cantor negro de jazz pintou seu rosto de preto.

A fantasia de “nega maluca” é a expressão local dessa técnica. Além do tinta preta no rosto, a peruca afro e batom vermelho, passado forma para aumentar os lábios, criam uma imagem hipersexulaizada e jocosa da mulher negra.

Talve não tenha ocorrido aos carnavalescos que a utilização puramente estética sem a intenção de caricaturar, costumeira no uso tradicional do procedimento, geraria críticas contundentes à escola.

É notória a tradição de enredos enaltecendo a negritude na vermelho branca tijucana. Marcaram a história do carnaval carioca o resgate de Zumbi, Chica da Silva, Chico Rei, reorientando a temática das escolas de samba do Rio de Janeiro, que desfilavam, exclusivamente, os feitos da História oficial.

Nem de longe a polêmica maculou o belíssimo desfile ou a identidade da agremiação. A escola ficou em terceiro lugar ,apresentou um dos mais belos conjuntos de fantasias e carros alegóricos do ano.

Quem sabe teria sido essa, mais uma ousadia salgueirense: dar um outro sentido ao recurso. Seria possível ressignificar a pintura negra da face, que durante séculos foi instrumento de segregação, dar a ela uma finalidade puramente estética?

A vitória do carnaval sem metáforas da Beija-Flor

A Beija-Flor na primeira metade da década de setenta, durante a ditadura militar, desenvolveu enredos que faziam apologia aos governos dos generais. Em 1973, “Educação para o desenvolvimento”, sobre o Mobral. Em 1975, já no grupo especial, “O grande decênio”, enaltecia o PIS-PASEP e o FUNRURAL. A escola de samba comemorava os dez anos do Golpe de 64.

O flerte com governos autoritários não ficou restrito à ditadura brasileira nos anos setenta. Recentemente, em 2015, com o patrocínio do cruel tirano da Guiné Equatorial, país miserável da África Ocidental, a “deusa da passarela” ganhou mais um campeonato.

Mudando completamente de lado, este ano a escola da Baixada empunhou a bandeira da luta contra a corrupção, violência, intolerância de gênero e racial. Uma agenda tradicional dos partidos de esquerda.
Desenvolveu o enredo sem filtros, estava quase tudo lá: uma mãe que vela um filho, um policial militar baleado, políticos carregando malas de dinheiro, uma sala de aula invadida por homens armados, um assalto na saída de um túnel, crianças vendendo balas com uniforme escolar, a “farra dos guardanapos”.

Algumas ausências foram sentidas nenhum Palocci, Dirceu, Dilma ou Lula passou na passarela. Indignação seletiva? Já que era para mostrar tudo, que todos estivessem lá.

Se o enredo era coxinha ou mortadela, não importa. Ser realista no Carnaval é uma contradição. A essência do carnaval é a fantasia, a máscara, a troca de identidade. Ao longo do ano já vivemos a vida real.

Salgueiro, Portela, Mocidade, Mangueira e Tuiuti, que desenvolveram críticas em seus enredos, entretanto, apresentaram suas demandas sem perder o sentido da alegorização.

É importante lembrar que em 1989 carnavalesco Joãozinho Trinta, com o enredo “Ratos e Urubus…Larguem minha fantasia”, fêz um enredo igualmente crítico.Entretanto,sem perder o compromisso com a carnavalização.

Com poucas plumas e brilhos, praticamente sem destaques que só apareceram na última alegoria da escola, com algumas alas vestidas de shorts, bermudas e camisetas, a escola de Nilópolis conquistou o corpo de jurados. Dois julgadores deram dez às fantasias da escola.

Em alegoria, um avaliador chegou a dar 10, os três outros 9,9 para um conjunto extremamente simples, contêineres empilhados constituíam o carro principal, que retratava o edifício sede da Petrobras.

Alegorias sem imponência que se tornaram palco para teatralizações. Era a realidade nua e crua. Encenou-se a tragédia de Realengo, um policial agonizava com um rombo no peito em plena avenida. Nenhuma interferência criativa.

O diálogo sem retoques com a realidade decidiu o título.

Muitos questionaram a idoneidade de uma escola onde seus dirigentes são acusados daquilo que denunciam. Seu presidente, por exemplo, foi condenado, em 2012, a 48 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação e contrabando. Coisas do carnaval!

Discutíveis as notas dos quesitos plásticos? Provavelmente. Enredo que relacionava os problemas sociais do Brasil com a Frankenstein foi um tanto quanto confuso? Com certeza. Mas o jurado, que antes de tudo é um cidadão, viu o que queria, e principalmente ouviu um grito entalado na garganta. Foi o cidadão quem julgou. O critério foi mais político do que técnico.

Se a concepção plástica dividiu opiniões, o samba foi uma unanimidade, o mais belo do ano. A Sapucaí veio abaixo, em uníssono. Todos denunciavam o abandono dos seus filhos pela mãe pátria.

Com harmonia e evolução irrepreensíveis, escola e arquibancadas cantavam um samba que nasceu clássico.
Uma multidão como nunca se viu no sambódromo, seguiu a escola, que foi a última a desfilar na noite de segunda feira.

A voz do povo prevaleceu. Com um carnaval sem metáforas a Beija-Flor sagrou-se campeã de 2018.

O casal mais chique da América do Sul

A afirmação do titulo da postagem foi feita por Truman Capote. Carmem Mayrink Veiga foi durante a segunda metade do século passado a personificação do glamour. Foi considerada pela revista Vanity Fair uma das pessoas mais bem vestidas do planeta.

Pertencia a um grupo social que tinha poder aquisitivo suficiente para viajar frequentemente de avião a jato. Era o Jet set (em inglês, literalmente, “conjunto de pessoas que se deslocam de avião a jato”). Milionários que cruzavam os oceanos em buscas de festas.

O termo foi introduzido na década de 1950, quando a companhia aérea britânica BOAC, em 2 de maio de 1952, começou a operar voos comerciais utilizando o avião de Havilland Comet Em razão do alto preço dos bilhetes, jet set identificava a elite financeira da sociedade.

No Brasil do século vinte um, empresários das “altas rodas” deixaram de frequentar as colunas sociais, foram parar na cadeia devido as propinas pagas a políticos corruptos. Os que eram referência de sofisticação na segunda metade do século passado, hoje não servem de parâmetro de elegância para ninguém.

Mesmo artistas, celebridades do atual grand monde, tidos como “influenciadores midiáticos”, também são acusados de financiamento fácil para seus projetos culturais através da Lei Rouanet.

Os tempos mudaram, o conceito de “socialite” perdeu completamente o sentido. Mas uma coisa temos que admitir: Carmem era chic à beça!

Na foto publicada no post, o casal está no Baile do Municipal, em 1971.

Carmem morreu, no dia 4 de dezembro de 2017. Ela era portadora de Paraparesia Espástica Tropical (PET), uma doença que afeta a medula espinal e limita os movimentos.

Eva Tudor, Rainha das Atrizes – 1935/1937

1935, Hitler promulgava as Leis de Nuremberg, código que interditava aos judeus alemães o status de cidadão. Foi o início de um processo que culminaria, alguns anos depois, com o extermínio em massa dos judeus europeus, o holocausto.

No mesmo ano, do lado de cá do atlântico uma judia foi eleita Rainha das Atrizes do carnaval carioca.

Bailarina, chegou a dançar na Ópera Real de Budapeste, veio com a família para o Brasil em 1929. Eva era húngara e nasceu em 9 de novembro de 1919, em Budapeste. Sua mãe era designer de moda e seu pai era comerciante de tecidos finos. Todos eram muito ligados em arte, por isso, matricularam a menina, ainda com quatro anos, na Ópera Real da Hungria, onde ela aprendeu a dançar balé clássico. Aqui, Eva continuou as aulas de balé e aos nove anos já havia se apresentado em espetáculo de dança solo, no Teatro Municipal de São Paulo. Eva Tudor foi eleita rainha, com apenas 15 anos, e reeleita dois anos depois.

Em 1933, a Casa dos Artistas, à procura de meios que lhe ajudassem a se manter, instituiu o Baile das Atrizes, no qual era declarada a Rainha das Atrizes do ano. O primeiro realizou-se sob enorme publicidade e sob o patrocínio do Correio da Noite, jornal diário dirigido por Mário Magalhães.

A Rainha das Atrizes era eleita de acordo com o número de votos que conseguisse vender. O baile virou tradição.

Em 2014, Eva foi diagnosticada com Parkinson. No começo de 2017 foi internada com pneumonia. Morreu no dia 10 de dezembro, do mesmo ano, aos 98 anos, por complicações dessa doença.

Kevin Spacey, o passado te condena

Estreante no Carnaval carioca,no ano de 2009, o ator norte-americano Kevin Spacey chegou à Sapucaí acompanhado por um amigo e três assessores.

Spacey foi direto assistir ao desfile das escolas de samba. Kevin passou cinco dias no Brasil, foi sua primeira e única visita ao País.

Foi direto do aeroporto para o camarote da Brahma, na Marquês de Sapucaí. Levado à varanda para conferir a passagem da Grande Rio no sambódromo, “ele ficou visivelmente boquiaberto com a performance dos sambistas.”

Depois de observar a apresentação, foi atrás de uma cerveja e seguiu para o restaurante para jantar. Lá, pediu para não ser incomodado.

O ator, duas vezes vencedor do Oscar muito assediado durante sua passagem pelo carnaval carioca, foi acusado de ter assediado, sexualmente, o ator Anthony Rapp, quando este tinha apenas 14 anos de idade, há 30 anos atrás. Spacey, então com 26 anos, convidou o menor de idade, para uma festa em sua casa, esperou que os outros fossem embora e tentou seduzir o jovem à força. O jovem trancou-se no banheiro e nada aconteceu. Uma grave denúncia.

Parece muito tempo para a maioria das pessoas, mas para Rapp, não. Segundo Einstein: “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.” Talvez para Anthony, os ditos momentos de terror, sejam recorrentes no seu pensamento, algo que ainda é presente.

A denúncia do ator de Star Trek abriu a porteira. Outros esqueletos no armário foram descobertos: Uma mãe de Massachusetts acusou Spacey, nesta semana, de ter abusado sexualmente de seu filho de 18 anos na ilha de Nantucket no ano passado. Oito membros da equipe de House of Cards afirmaram ser vítimas do ator, assim como o filho do ator Richard Dreyfuss, que revelou que Kevin o “apalpou” quanto ele tinha 18 anos. O cineasta Tony Montana disse que foi agarrado pelo ator em um bar de Los Angeles, em 2003.

Relatos semelhantes envolvendo outras celebridades hollywoodianas vieram à tona.

Dustin Hoffman foi acusado pela produtora Wendy Riss de tê-la assediado em 1991, o que teria sido para ela uma “fonte de tormentos.”

Em uma entrevista dada à revista “Times” em 1979, a atriz Meryl Streep acusou, o mesmo ator, Dustin Hoffman, de assédio no dia em que se conheceram.” Ele veio até mim e disse: Eu sou Dustin(arrotou) e colocou a mão dele no meu seio.”

A roteirista Jessica Teich acusou o ator Richard Dreyfuss de assédio sexual durante três anos da década de 1980.

Todos esses relatos são verdadeiros? Podemos inventar, também o passado. recriá-lo com conveniência. Se houve algum tipo de reciprocidade? Nunca saberemos, tudo pode ser manipulado.

Spacey soltou um comunicado pedindo “sinceras desculpas”, dizendo que não se lembrava do caso. Se desculpou por algo que não se lembrava?! E ainda buscou ajuda psicológica. Foi internado em um luxuoso centro de reabilitação na vila Wickenburg, no Arizona.

Spacey estaria pagando U$ 36 mil (cerca de R$ 118 mil) por mês no local, que seria considerado o melhor programa contra vício em sexo dos Estados Unidos. Por lá passaram celebridades como Tiger Woods, Elle MacPherson, Kate Moss.

Em janeiro de 2018, um grupo de cem francesas, entre elas, a atriz Catherine Deneuve, publicou um artigo com o objetivo de defender a liberdade dos homens de “importunar. ” O texto pretende contrapor o que chamaram de campanha de “delações” ou “caça as bruxas.”

Para Deneuve e as demais personalidades, as “delações” não servem à autonomia das mulheres, mas a inimigos da liberdade sexual, a extremistas religiosos, a reacionários e a quem vê o sexo feminino ” como uma criança que pede proteção. ”

Memórias de dor? Indenizações milionárias em jogo? Caça às bruxas? Busca de notoriedade? Passado falsificado? Qual o limite de uma abordagem?

Talvez no futuro, que assim como o passado – é uma ficção, encontremos as respostas, para as acusações que condenaram ao ostracismo um dos maiores atores da atualidade.

Com a ajuda dos santos eu terei uma vida doce

Cosme e Damião, santos gêmeos, nasceram na Arábia e seus nomes de batismo eram Acta e Passio. Médicos, tratavam os enfermos sem cobrar e curavam através de suas orações, pela fé incrível que praticavam. Por exercerem o cristianismo, foram presos, levados a tribunal e acusados de se entregarem à prática de feitiçaria e de usar meios diabólicos para disfarçar as curas que realizavam. Em 303, o Imperador Diocleciano decretou que fossem condenados à morte .

Na umbanda um terceiro personagem transforma a dupla de gêmeos em trio: Dom Um. Foi o que não nasceu, morreu. aquele que não veio. Um espírito protetor , um erê. Dom Um serve de consolo quando uma criança morre.

No ano de 2017 a Mangueira fantasiou suas baianas com saquinhos de Cosme e Damião.Um dos momentos mais belos do sensacional desfile da verde e rosa.

A pele que habito

O juiz federal da 14ª Vara do Distrito Federal concedeu liminar que abre brecha para que psicólogos ofereçam a terapia de reversão sexual, conhecida como ‘cura gay’, tratamento proibido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) desde 1999.

Evelyn e Carolyne ao sair do Baile do Arco Íris, estupefatas com a notícia, correram para o SUS mais próximo, ainda de madrugada, em busca de um milagre.

Finalmente, cientistas brasileiros descobriram uma terapia que transformaria suas vidas num “anúncio de margarina”. Algo bem diferente da trajetória de adversidades enfrentadas por nossas duas guerreiras.

Evelyn foi expulsa de casa, perdeu família, amigos de infância, teve de reconstruir sua vida do nada. Sem apoio de ninguém, formou-se em direito, hoje trabalha num dos maiores escritórios de advocacia do Rio de janeiro e é reconhecida por todos os seus pares.

Carolyne a tudo enfrentou. Trabalha como maquiadora na Rede Globo e é aclamada como a melhor síndica que o edifício Rajá já teve. Famoso prédio, na praia de Botafogo, onde nossa esteticista comprou um conjugado,com vista para o Pão de açúcar.

Uma mãe acolhedora e uma irmã parceira possibilitaram uma trajetória mais amena para ela. Entretanto, como todas as suas contemporâneas, era vítima de uma “consentida” violência cotidiana.

Filas enormes se formaram, a PM foi convocada, milhares de gays e lésbicas em busca da reversão. Afinal, quem quer viver assim?

A longa espera por uma senha redentora diluiu a esperança de se livrar do opressivo preconceito e fez com que se dessem conta que quem precisa de “cura” são aqueles que ainda não entenderam que ninguém escolhe o objeto do desejo e muito menos ser um pária da sociedade.

Oferecer tratamento para homossexualidade, que não é uma doença, só faz crescer as estatísticas, no país que é campeão em crimes ligados a homofobia.

Quem precisa de terapia de reversão são os políticos corruptos, gente canalha, pastores oportunistas, presidentes mafiosos, empresários sanguessugas, e claro… psicólogos malucos!

Obs. Evelyn e Carolyne estavam saindo do Baile do Arco Íris, em 1958.Quase sessenta anos e o mesmo obscurantismo!

Rogéria – Se eu não achar um caminho, eu faço um

Numa recente polêmica o cantor Johnny Hooker criticou a seguinte afirmação feita por Ney Matogrosso: ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’. Para o Johnny “É inconcebível a afirmação feita por Ney Matogrosso, no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!)”.
Hooker pode discordar e argumentar o que quiser. O que falou, inclusive, faz bastante sentido. Entretanto, a carreira do hipster cantor pernambucano não o credencia a antagonista de alguém que lhe abriu o caminho.

Ney além de excelente cantor, construiu uma carreira em anos de chumbo, e resiste a passagem do tempo devido ao seu incontestável talento. Hooker ainda não disse a que veio.
Rogéria foi outra que pavimentou uma estrada de possibilidades. Se hoje nosso país se destaca pela violência contra homossexuais, imagine nos anos sessenta e setenta do século passado.

A Marylin gay atuou no primeiro espetáculo de travestis, “ les girls” encenado no nosso país. Filmou com grandes cineastas, Foi premiada por sua atuação no teatro com o Troféu Mambembe, foi jurada em programa de auditório na época em que travesti na TV era uma novidade, enfim ocupou espaços.

Gostava de se proclamar Johnny “O travesti da família brasileira” – e, de fato, alcançou uma aprovação inimaginável.

Numa declaração parecida com a de Matogrosso, Rogéria afirmava: – “Engajada? ” Eu preciso ser engajada? Eu sou o engajamento em pessoa! Se as outras travestis estão aí, agradeçam a mim, que sou uma bandeira.

Liniker, Pablo Vittar, Hooker tem muito a aprender com aqueles que menos preocupados em construir uma imagem com declarações politicamente corretas experimentaram com valentia a solidão dos pioneiros.

Aos setenta e quatro anos , no dia 4 de setembro, morreu , de infecção urinária, Rogéria.

O ÚLTIMO CARNAVAL DE JERRY LEWIS

Não sei se Jerry Lewis gostava de carnaval. Não há registro de sua presença no “baile de Gala da Cidade do Rio de Janeiro” que atraía celebridades hollywoodianas nos anos em que o comediante brilhava nas telas de cinema.

Há indícios que Jerry o homem, não o artista, era conservador e cheio de preconceitos. Talvez achasse a folia momesca algo um tanto quanto grotesco.

O cômico Lewis este sim, tenho certeza que fez uma tremenda farra ao lado da nossa “pequena notável”, no filme Scared Stiff (Morrendo de Medo,1953). Acompanhando os protagonistas Jerry Lewis e Dean Martin nos números musicais, está Carmen Miranda.

O enredo do filme narra as aventuras de um cantor e seu parceiro atrapalhado que são perseguidos por um gângster ciumento. Na fuga, são ajudados por uma herdeira de uma grande propriedade em Cuba. Quando a herdeira está para pegar o navio para tomar posse de sua herança, o cantor descobre que ela vem sendo ameaçada de morte. Além disso, a propriedade, um castelo medieval, tem fama de ser mal assombrada. Os dois resolvem ir para a Cuba com a moça, e entram para o show da cantora Carmelita Castinha, apresentado a bordo.

Carmen Miranda era Carmelita Castinha, de nacionalidade indefinida, apesar de algumas frases em português. Ela praticamente não participa da história, é uma peça decorativa, sem nenhuma função na trama. Aparece na condição de estrela em dois números musicais ao lado de Dean e Jerry, que também imita a cantora.
Na biografia de Carmem, Ruy Castro afirma que a cantora: filmou mais um número, que teria sido cortado, porque Jerry Lewis não admitia dar espaço a ninguém em um filme. (mesmo Dean Martin tinha de lutar pelo seu).

Rui Castro ressalta que Carmem Miranda aos 44 anos, com excesso de peso e sem fôlego, parece lançar mão de suas últimas reservas físicas e mentais para obedecer às marcações do coreógrafo e sobretudo à hiperatividade de Jerry Lewis na interpretação das canções “The bongo bingo” e “The enchilada man”, deixando transparecer em seu rosto a satisfação de haver conseguido concluir os seus números. Foi o último e pior filme da artista luso-brasileira, que morreria dois anos depois.

No show apresentado no navio, Jerry Lewis se traveste de Carmen Miranda, com os tradicionais tamancos e chapéu de frutas. Ele canta em português a canção Mamãe eu quero (de Vicente Amorim e Jararaca, 1937), comendo uma banana que apanhou do citado chapéu.

O artista Jerry era sublime, mas o homem Lewis, era egoísta, vingativo, preconceituoso. Não era estimado como pessoa.

O jornalista Guilherme Genestreti no jornal Folha de São Paulo citou alguns exemplos da homofobia e misoginia do nosso astro: Em 2000, num evento de humor, disse não gostar de comediantes do sexo feminino. “Penso nelas como máquinas de produzir bebês”. Durante uma maratona beneficente realizada em 2007, o ator fez piada com um parente imaginário seu, que ele chamou de “Jesse, The Illiterate Faggot” (algo como “Jesse, o viado analfabeto”). Lewis teve que se desculpar publicamente pelo comentário.

Em 2015, Lewis criticou o então presidente Barack Obama (“nunca foi um líder”), disse que refugiados deveriam ficar “na puta que o pariu onde estão” e elogiou a candidatura de Donald Trump: “Ele é ótimo porque é um ‘showman’. E nunca tivemos um na cadeira presidencial.”
Em seu testamento deixou claro que os seus seis filhos e seus descendentes não colocariam as mãos em sua fortuna. As únicas contempladas foram sua última mulher, SanDee e a filha adotiva Danielle. O primogênito, Gary Lewis, acusou seu pai de crueldade.

Jerry Lewis, um dos maiores comediantes do mundo, morreu no último 20 de agosto, aos 91 anos.