Zsa Zsa Gabor no carnaval do Rio de Janeiro de 1960

No ano de 1960, Hollywood mandou quatro estrelas de primeira grandeza para o carnaval do Rio. Kim Novak, Linda Darnell, Julie London e Zsa Zsa Gabor.

Como aconteceu com vários atores e atrizes cujas carreiras tinham começado ao logo dos anos 40/50, Zsa Zsa Gabor foi encontrando cada vez menos oportunidades nos filmes da década de 60, surgindo com mais frequência em séries televisivas. Entretanto, essa decadência ainda não se fazia sentir em 1960. Causou frenesi sua passagem pela cidade.

Segue o registro da passagem da atriz húngara no principal baile do teatro Municipal, o mais glamoroso da época:

Por volta de uma hora da manhã, Gabor chegou ao Municipal. Acompanhada da mãe, padrasto e acompanhante, sofreu assédio incrível dos fotógrafos . Foi levada ao camarote do prefeito onde fez sua primeira aparição diante do público. Foi ovacionada. Subiu, também, ao parapeito do camarote e acompanhou a música, nos seus movimentos. Zsa Zsa atendeu a todos.

Reparem o lança-perfume nas mãos da diva.

A quase centenária atriz húngara , completaria 100 anos, em 6 de fevereiro de 2017, morreu no dia 18/12/2016. Zsa Zsa sofreu um ataque cardíaco. Estrelou filmes como “Moulin Rouge” e “Lili” nos anos 1950, estava confinada à sua casa desde 2011, quando teve uma perna amputada e outros problemas de saúde.

Sua vida fora das telas rivalizava com sua carreira, afirmava: “Mereço receber atenção não por ter algum talento, mas por ser quem sou. Sou famosa por ser famosa”. Vai ser lembrada, também , por seu nome estranho, por suas excentricidades ao vestir-se, por seus vários casamentos e declarações polêmicas.

A verve frasista da atriz húngara, na minha opinião, era sua faceta mais interessante. Algumas de suas pérolas:

“Não existe homem rico feio.”
“Eu não sei nada sobre sexo, porque eu sempre estou casada.”
“Eu quero um homem que seja carinhoso e compreensivo. É pedir muito, de um milionário?”
“A garota deve se casar por amor, e continuar casada até ela encontra-lo.”
“Divorciar-se apenas porque você já não ama o seu marido é quase tão idiota quanto se ter casado com ele apenas porque o amava.”
“Sou uma ótima dona de casa: sempre que me divorcio, eu fico com a casa.”
“Ser amado é uma força. Amar é uma fraqueza.”

Criação do Mundo na Tradição Nagô

Eles desceram de Nilópolis para cantar a Criação do Mundo na Tradição Nagô . Quando os 2000 figurantes, em 50 alas, surgiram na cabeça da pista, as galerias sentiram que a Beija-Flor ia explodir. E aconteceu: na beleza das alegorias, na perfeição da harmonia e na fantástica movimentação de uma coreografia que arrebatou o público. Com sua presença na passarela, a grande festa chegou ao seu ponto mais alto. Para materializar o enredo o carnavalesco Joãozinho Trinta recorreu a um expediente simples: retirou dos figurantes as alegorias de mão, diminuiu o número de carros alegóricos e supriu as roupas pesadas. Resultado: a escola deslizou pelo asfalto com uma leveza de sonho.

A escola apresentou muitos destaques, dentre eles a primeira dama da escola, Marlene Senas David, a mulher do presidente Nelson David; Jésus Henrique, com a fantasia Obatalá; Lusimar de Almeida, com Odudua, e o próprio figurinista Viriato Ferreira.

Joãozinho Trinta contou que teve a inspiração para o enredo durante o primeiro desfile da Beija-Flor, em que ela foi campeã. Ele relata: – Levei um susto danado quando vi que o último carro, o Rei Leão, estava enguiçado. Muita gente tentava desenguiça-lo , sem qualquer resultado. Como tinha que fazer alguma coisa, corri em direção ao carro, fiquei bem de frente do veículo e mandei que ele andasse. Andou. Em seguida surgiu no céu um lindo arco-íris. Nesse momento me veio à cabeça a ideia de um enredo para agradecer a verdadeira graça que recebi naquele dia e daí surgiu Criação do Mundo na Tradição Nagô.

Máscaras, se mostra melhor o que se oculta

De todas as instituições carnavalescas, a máscara é a mais fácil de entender. Na verdade, os mascarados sempre procuram a mesma coisa, em todos os tempos: ocultar sua identidade, esconder um rosto feio ou bonito, mas que é o sinal externo facilmente reconhecível de uma personalidade prisioneira de compromissos e responsabilidades. Quando se cobre o rosto, está-se despindo a máscara mais sólida que se usou o ano todo. Daí a contradição de se mostrar melhor o que se oculta.(texto adaptado da Revista Manchete,8/3/1969)

Favela querida

Quando o Brasil completou 500 anos, Darbi Daniel ficou em segundo lugar na categoria de originalidade masculina,no desfile do Hotel Glória,do ano 2000, com a fantasia: Brasil, 500 Anos lavando a Roupa Suja.De lá para cá … Os desfiles de fantasia praticamente não existem mais. O hotel Glória também foi impiedosamente destruído por um delírio megalomaníaco.Entretanto,segundo alguns, programas de distribuição de renda retiraram da pobreza 30 milhões de pessoas. Mas o que constatamos, no dia a dia, é o descaso de sempre. A mesma ausência de políticas públicas e o mesmo abandono da população carente.

Vamos passar debaixo do arco-íris!

Vou reproduzir na íntegra o texto da matéria publicada, na revista Manchete, de 1958. O conteúdo é muito revelador do quanto era marginal a vida gay nos anos 50.A hipocrisia dava o tom: `No momento, o desfile está proibido, e o baile, antes bastante espontâneo, foi tabelado para turista pela prefeitura, com guardas em profusão e uma multidão a vaiar os que entram fantasiados.É,porém, um baile bastante animado, ordeiro, com menor número possível de brigas(e de bêbados) e a presença de diplomatas estrangeiros e famílias. A má imprensa carioca, que passou a explorá-lo na base do escabroso, é culpada da imensa quantidade de pessoas que hoje entram debaixo de apupos, ocultando o rosto com máscaras. É que ao passar debaixo da marquise, sentem-se como se passassem por baixo do arco-íris, mudando repentinamente de sexo como nos fala a lenda.`

Luís XV, Isabel de Portugal e Lohengrin

Já imaginou uma festa com os três acima! Ferveção total. Todos animados, elegantes e empoderados. Vamos lá, da esquerda para direita: O rei da França, Luís XV(1710-1774). Casou-se com Maria, filha do rei destronado da Polônia, o que levou Luís XV a combater a Áustria e a Rússia na guerra de Sucessão polonesa (1733-1738). Outra conflito que se envolveu foi desastrosa guerra dos Sete Anos (1756-1763) contra a Grã-Bretanha. Perdeu a guerra e a maior parte de suas colônias. O rei caiu no descrédito de seus súditos, abrindo o caminho em direção a deflagração da Revolução Francesa (1789). Durante quase todo seu reinado, manteve amantes que exerceram grande influência no governo, como a marquesa de Vintimille , a célebre madame Pompadour e a derradeira du Barry. Sua roupa foi orçada em módicos 6 milhões de cruzeiros. Quinze metros de veludo real foram empregados, afora os enfeites caríssimos. Morreu vitimado pela varíola. Isabel de Avis, Isabel de Aragão, Isabel de Viseu? Não sei exatamente qual a Isabel representada. Só sei que na sua roupa foram empregadas 16 mil pedras da Tchecoslováquia (sim, ainda havia Tchecoslováquia, em 1961) e 8 mil pérolas, além 625 milheiros de lantejoulas, foram incrustadas em 62 metros de fazenda colorida. Foi confeccionada por Marcílio Campos, costureiro pernambucano, até então, bicampeão do carnaval carioca. Acredito que qualquer uma das possíveis isabéis ficariam muito satisfeitas com o capricho do modelo escolhido. Lohengrin, um cavaleiro do Santo Graal, filho do cavaleiro da távola redonda, Parsifal. Personagem da mitologia germânica, foi tema de uma ópera de Wagner. Sempre que aparece está num barco puxado por um cisne, e se apresenta deslumbrantemente vestido. No baile do Municipal , não economizou, usou 52 cabuchões (raríssimos) de louça de Limonges. Foi confeccionada em veludo inglês, nas cores preta, azul e prata. Sua espada foi importada diretamente da Alemanha. Com muitas vitórias acumuladas, Clóvis Bornay, o nosso Luís XV, foi declarado, em 1961, “hors-concours’ e ganhou o direito de se apresentar nos concursos sem ser julgado. A pernambucana Denise Zelaquett encarnou a rainha Isabel. Evandro de Castro Lima representou Lohengrin.

O samba é uma criança- Viva Nair Pequena!

Mangueira no ano passado perdeu uma sambista na Avenida. Tinha quilômetros de samba na memória e nos pés. Chamava-se Nair Pequena.Caiu e morreu. Mas caiu e morreu legendária, cumprindo a sina da cabrocha e do passista. `Quero morrer numa batucada de bamba, na cadência bonita do samba` Porém a Mangueira não morreu, o samba está vivo, foi só Nair Pequena que pediu para abrirem alas, que ela estava cansada e queria dormir. Na Mangueira e no Salgueiro, na Portela e no Império Serrano o samba renasce a cada ano. Estamos falando de gente, de vida verdadeira, não se trata de alegoria. Olhem. Vejam o sambista da Mangueira com sua filhinha no colo. Reparem no sorriso dele, como transmite continuação, triunfo. e vejam como a mulatinha já abre os braços e já canta exatamente como sua mãe, exatamente como as dezenas de milhares que avançam na Avenida, chova torrencialmente ou faça um calor de rachar, tão logo as baterias anunciem a hora suprema. O pai exibe orgulhoso a própria filha e, dentro dela, como dentro dele, a própria felicidade que se exprime no carnaval e que nos fala de uma África tribal – o Brasil – de pai para filha, de família para família, sempre recomeçada e por isso imortal. Vejam! A garotinha já aprendeu o gesto, ela dança como gente grande, só que no colo paterno. Amanhã estará na Avenida mostrando a sua graça. É o que se lê no sorriso do homem. Nair Pequena morreu, viva Nair Pequena. Crônica escrita por José Carlos Oliveira. e publicada na Revista Manchete(6/3/1971)

Encontrei as seguintes informações no site: Estação Primeira de Mangueira: Nair dos Santos, a NAIR PEQUENA, uma das fundadoras da Estação Primeira de Mangueira, foi também a fundadora da 1ª ala feminina da escola, a “Ala das Cozinheiras”. Mas foi na ala das baianas que ganhou notoriedade, sendo considerada a mais famosa baiana da história da verde e rosa. Seu amor pela Mangueira era tão grande, que sua “passagem” foi em plena avenida: no desfile das campeãs de 1970, quando a escola ficara em 3º lugar com “Um cântico à natureza”, Nair Pequena “morreu de alegria, de emoção”. Toda a escola seguiu, como que num cortejo, com a bateria fazendo a marcação apenas com seu surdo de primeira.

Banho de mar à fantasia

Nos dois domingos que antecederam o do carnaval , no ano de 1953, dois desfiles que culminaram com um banho de mar à fantasia foram realizados: um em Copacabana e outro na Praia do Flamengo. funcionavam como uma espécie de ensaio geral das Escolas de Samba . Os Ranchos também eram convidados para a festa.Fantasias requintadas todas feitas de papel crepom coloriam as praias da zona sul carioca.Teve seu apogeu no peíodo entreguerras.Interessante o espetáculo do desmanche imediato das fantasias,a efemeridade vivida no seu limite.Interessante, também unir as duas paixões do carioca em um só evento: o carnaval e a praia. A pergunta que fica no ar: Por que essa modalidade de folia não mais se realiza?

Dois reis no Salgueiro

Angola, Congo, Benguela/Monjolo,Cabinda, Mina,Quiloa, Rebolo/Aqui onde estão os homens/Há um grande leilão/Dizem que nele há uma princesa à venda/Que veio junto com seus súditos/Acorrentados num carro de boi…Havia também dois reis.Embarcaram sem súditos, mas encantaram à todos com sua arte e o povo daqui se curvou diante do talento excepcional de Jorge Ben e Wilson Simonal.Na foto acima, publicada pela revista Manchete(6/3/1971), temos os dois dos maiores representantes do samba moderno desfilando na escola que revolucionou o carnaval carioca- O Salgueiro.O samba nunca mais foi o mesmo após as inovações ritmicas introduzidas por Jorge Ben e o carisma (ou pilantragem)de Wilson Simonal. Simonal foi um cantor de muito sucesso nas décadas de 60 e 70. Comandou programas de tv, assinou contratos milionários de publicidade e comandava milhares de pessoas em shows com seu magnetismo excepcional.Morreu,aos 62 anos, em junho do ano 2000.A obra de Jorge Ben tem uma importância singular para a música brasileira, por incorporar elementos novos na maneira de tocar violão e compor, com características do rock and roll, samba, samba rock ,bossa nova, jazz, maracatu.Além dos músicos citados, o jogador do Fluminense, Cafuringa aparece à direita(Morreu em 1991).O maestro Erlon Chaves, morto em 74, também fazia parte da ala.

Era o futuro e ninguém avisou nada…

Julho de 1969, a Apolo 11 pousou na superfície lunar, em um local chamado Mar da Tranquilidade.Alguns meses depois no oceano de loucuras do carnaval Carioca,despontava, na passarela do principal baile da cidade, uma estranha fantasia. Teria sido inspirada numa moon girl do Courrèges? Linhas retas e um quê de vestimenta espacial.Seria um modelo de Paco Rabanne com um macacão metalizado, lembrando alumínio? geometrismo de um autentico Pierre Cardin? No auge da contracultura, nada melhor do que apresentar uma colombina desconstruída.A viagem a lua inspirava a moda.O personagem da commedia dell’arte se reinventou e levou o segundo prêmio do concurso de fantasias do teatro Municipal do Rio de Janeiro. Dina Mara de Oliveira não sabia, mas um `futuro` como aquele, com naves pousando na lua, não se repetiria nunca mais.Era o futuro e ninguém sabia.